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* Osvaldo Teodoro Born Falar em mobilidade está na moda. Falar em BRT, termo parido de forma tão pouco científica, também está na moda. Mas fala-se muito em estrutura e pouco na questão social. Como falar em mobilidade se o governo da maior municipalidade do país restringe a circulação de ônibus que fazem serviço de fretamento de trabalhadores dentro da cidade? Como falar em mobilidade se a tarifa de ônibus nas cidades brasileiras tem, cada vez mais, representado um obstáculo à incorporação e manutenção das classes desfavorecidas como usuárias dos sistemas? Como falar em mobilidade se o incentivo ao transporte individual é cada vez maior nas cidades e a aquisição de automóveis é muito mais facilitada que a renovação das frotas de ônibus? Como falar em mobilidade se a cidade tida como exemplo de sistema de ônibus no Brasil e no mundo diminui o tamanho dos veículos em algumas linhas (e que andam lotado nos horários de pico), emperra as viagens com cobrança de tarifa pelo condutor, ao invés de se incentivar o uso do ônibus através de campanhas massivas e restrições ao transporte individual. Como falar em mobilidade se o ônibus de motor dianteiro continua sendo o mais vendido no Brasil para o segmento urbano, e até mesmo fabricantes que há alguns anos haviam desistido de oferecer em sua linha de produtos este tipo de ônibus voltam a oferecê-lo como alternativa mais barata? Sendo que nenhuma tecnologia incorporada resolve o principal problema em relação a este tipo de ônibus. Desconforto para passageiro, desconforto para operadores. São questões que afligem o dia a dia dos cidadãos brasileiros e que são tratadas somente no aspecto técnico, sem aterem-se ao social que as envolve. BRT ou sistemas de transporte coletivo? Antes de se falar em BRT temos que falar em mobilidade através de uso de múltiplos meios de deslocamento e não somente o ônibus. |
Cabe o individual? Sim, desde que restrito a certas áreas e cada vez mais impedido de circular livremente pelas áreas centrais da cidade. Estacionamentos seguros junto aos terminais de troncos e circulares seriam um bom começo. Pedágios urbanos para automóveis, com a transposição imediata e direta dos recursos para o sistema de transporte coletivo, também deve ser pensado. Cabe o coletivo fretado? Sim, além de diminuir o número de veículos individuais em circulação, gerando menos poluição e mais espaço, retira do transporte público ineficiente boa parte da demanda, além de trazer mais conforto ao trabalhador. Tem-se, no entanto, que se estabelecer e fiscalizar regras com relação ao tipo de veículo e à operação minimizando possíveis problemas que este tipo de veículo, ao estacionar de forma irregular, possa causar. Cabe o coletivo? Sim, desde o micro até o articulado, cidades de pequeno, médio e grande porte devem conviver com o veículo do tipo ônibus por muitos anos. Mas as exigências aos técnicos que projetam os sistemas de transporte devem ser cada vez maiores. Os sistemas devem ser inteligentes e integrados, incentivando muito mais do que a rapidez. Cabem sistemas adicionais de maior porte? Sim, devem ser pensados, com a implantação gradativa de metrôs ou trens modernos. Mas eles devem, necessariamente, formar uma única rede com os demais serviços coletivos, multiplicando as possibilidades de deslocamento dentro das cidades e suas regiões metropolitanas. Muito a se fazer
Apesar de haver muita evolução no transporte público em algumas cidades, em outras ainda reina um tipo de mobilidade débil com sobreposição de linhas, disputa de passageiros, sobreposição de sistemas alternativos nem sempre autorizados – o transporte clandestino – e planejamentos de prazo curto e que mudam a cada nova posse de prefeito ou governador. Não se pensa de forma global e investimentos passados são enterrados nas obras que criam os modelos com a cara do novo administrador público que assumiu. BRTs já estão errados desde a sua gênese se ligados apenas seguindo a idéia desta sopa de letrinhas que virou moda. Além de rápidos, os sistemas devem ser inteligentes, porque transportar as pessoas de um canto a outro de modo rápido não é tão difícil assim. Mas transportá-las com qualidade através de veículos confortáveis, pessoal operacional bem treinado, mobilidade múltipla, harmonização dos sistemas com a cidade, sistemas de cobrança com integração com outros modais, e com valor justo às camadas mais pobres da população, é o dilema que as faculdades de engenharia não bastam para resolver. Pensar o social e não apenas a rapidez deveria ser o lema da mobilidade. Posso estar sendo apenas mais um a apontar um monte de falhas no modo como os projetos, idéias e discussões estão sendo desenvolvidos no tocante a BRTs e sistemas de maior porte. Mas, pelo menos, eu também estou seguindo a moda! *Osvaldo Teodoro Born, mantenedor do site www.omnibus.com.br e integrante da equipe de organização das Exponi, exposições de ônibus novos e antigos. 16/03/2010
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