O ônibus e a sustentabilidade

Perder o bonde da história, antiga expressão que mostra o ficar para trás, tem uma estreita ligação com o Brasil em muitos aspectos. Podemos até evoluir, subir alguns degraus na conquista de um espaço na história, como no aspecto ambiental, mas há muito mais elementos deixados no passado do que propriamente realizações que poderiam ter contribuído com o nosso avanço.

Quer um exemplo? O potencial do País em ser um representante ambiental de peso no mundo em virtude de sua estrutura, com recursos naturais em abundância e clima equilibrado.

Nesse contexto, poderíamos tirar de lição a promoção de uma economia verde, baseada em princípios de sustentabilidade ambiental, com ganhos no lado social (diminuição dos problemas causados pela poluição à saúde pública). O Brasil preferiu seguir outro caminho, não tão salutar.

Olhemos a nossa mobilidade urbana, tão essencial no desenvolvimento, porém com conceitos que mais prejudicam do que beneficiam os espaços e a qualidade de vida nas grandes cidades brasileiras. Por anos e anos acompanhamos as gestões públicas proporcionando políticas estimulantes ao transporte individual, com muitos investimentos em vias para automóveis e pouca atenção para o transporte público, não levando em consideração os prejuízos causados por níveis cada vez mais crescentes de emissões poluentes, esses gerados pelo farto uso do combustível fóssil.

Pois bem. Chegamos a um momento agravante ao ambiente da Terra, com a necessidade mais que urgente para cessar os malefícios causados pela poluição.  Para isso, deveríamos ter um transporte público limpo contemplado por uma matriz energética variada utilizada nos ônibus urbanos, principal meio de deslocamento coletivo do País.

Eletricidade, gás natural e consequentemente biogás, etanol, biodiesel, diesel de cana e até motores a diesel atendendo a norma Euro VI (novamente estamos aquém da evolução), são opções viáveis e já testadas para veículos de baixo carbono. Por que não liderar na América Latina um amplo programa de incentivo à tração alternativa capaz de atender ao pacto de ônibus limpos para as grandes cidades da região?

É preciso ser sensato ao se estabelecer metas para a redução das emissões poluentes. De nada adianta radicalismos ao escolher apenas uma matriz energética nos sistemas de ônibus urbanos. O mercado brasileiro (serviço e operação) precisa, antes de tudo, encontrar o equilíbrio econômico financeiro e a segurança jurídica de modo que garanta a mudança de conceitos para a operação.

A indústria brasileira, composta por diversas marcas, cada qual com seus desenvolvimentos e tecnologias diferenciadas, pode contribuir com essa possibilidade real para que o Brasil se torne o exemplo para o mundo.

Mas também é significativo dizer que o poder público tem o dever de aplacar medidas que visem essa transformação, com a aplicação de recursos extras para a garantia dos serviços e da adoção das tecnologias alternativas existentes. O investimento é alto e não pode ser unilateral.

A capital paulista tenta emplacar o uso do ônibus limpo em larga escala. Já estabeleceu metas ousadas para a mitigação dos efeitos negativos da poluição. Porém exigirão expressivos investimentos. A pergunta que fica é, quem vai pagar a conta?

Entende-se que a redução do CO² fóssil é o imperativo neste momento para se alcançar um ambiente mais limpo. Mas, não seria o correto iniciar-se com um objetivo um pouco mais simples, sem perder a importância do contexto, relativo à redução das emissões locais (material particulado e óxido de nitrogênio)?

Nesse aspecto, uma oportunidade interessante pode ser vista em um programa flexível de substituição dos veículos, com metas reguladas ao longo do processo, olhando para a diversificação da matriz energética, com todas as opções alternativas em combustíveis ou trações citadas que conferem benefícios para uma política pública abrangente e bem harmoniosa.

O operador não poderia ser beneficiado com a possibilidade de escolha tecnológica que melhor lhe convém?

Afinal, pensar somente em CO² fóssil é olhar para uma cadeia mais ampla, que extrapola o cenário urbano. Não há dúvidas que é fundamental implantar um extenso programa de combate às mudanças climáticas. Entretanto, pode-se contribuir com mecanismos mais simples na redução das emissões poluentes provenientes dos sistemas de transportes, por meio de políticas mais flexíveis e adequadas, com um modelo aceitável em termos financeiros e operacionais, servindo de atração para que os municípios brasileiros sigam o exemplo em prol dos benefícios climáticos.

As metas para uma mobilidade sustentável fazem parte de algumas mobilizações pelo mundo em torno do tema, dentre elas a Declaração de Intenções para Ônibus Urbanos Limpos do C40 (grupo de grandes cidades mundiais engajadas e comprometidas a implementar ações significativas e sustentáveis relacionadas ao clima global). Trata-se de um instrumento para que fabricantes globais, operadores de transportes públicos, empresas de leasing, bancos multilaterais de desenvolvimento e outras agências de financiamento apoiem as ambições das cidades em descarbonizar o transporte coletivo urbano. E os governos devem olhar de maneira mais técnica a gestão e operação dos sistemas urbanos, com incentivos que permitam o fortalecimento do mercado, para assim haver otimização no setor em favorecimento ao meio ambiente e à saúde pública.

Temos de ser conscientes e unidos para que possamos ter um futuro (o tempo urge e evolução não espera) sem continuar perdendo o bonde da história.

Antônio Ferro