Provocar a transição para o ônibus limpo

Sempre quando pautado, o assunto novas matrizes energéticas para os ônibus urbanos brasileiros provoca um debate proeminente, tendo no centro da discussão uma palavrinha que causa o dilema para se alcançar sustentabilidade operacional – custo. Afinal, quem mantém todos os sistemas de transporte coletivo realizado pelo modal nas cidades, é a tarifa, que mal tem coberta as despesas da operação simplificada e arcaica de um veículo que se move por um combustível tradicional – o diesel.

Objetiva-se um ambiente urbano mais limpo, sem as consequências nefastas causadas pela alta concentração de poluentes vindos dos canos de escape do transporte público, que não pode ser responsabilizado unicamente frente a outros meios de transporte que também enviam para os ares suas contribuições em termos de gases tóxicos.

Porém, é preciso levar em consideração, sempre na ponta do lápis, o equilíbrio econômico da operação, pois ninguém trabalha sem ter rentabilidade em seu negócio. Os ônibus com tração alternativa custam mais caro em relação aos modelos convencionais, pois a demanda, pelo menos em termos de mercado brasileiro, é baixíssima e não há programas e políticas públicas que incentivem seu uso em larga escala. Se bem que não há, neste momento, qualquer fomento que visa melhorar as condições dos ônibus urbanos em nosso país.

Nem tudo está perdido. Mobilizações lá fora podem dar um certo ânimo para que o Brasil acerte seus ponteiros com o compromisso ambiental firmado na COP 21, Conferência de Paris, realizada em 2015. Já deveríamos ter adotado certos procedimentos para contribuir com a redução das emissões de gases tóxicos nas maiores cidades, como o transporte público eficiente e o uso de tecnologias limpas nas trações veiculares. Infelizmente, ainda estamos devendo.

Não percamos as esperanças. Recentemente, quatro grandes fabricantes mundiais de veículos e propulsores anunciaram um acordo para tornar mais fácil a aquisição de ônibus equipados com tecnologia de baixo carbono para combater as mudanças climáticas. BYD, Cummins, Scania e Volvo são os nomes que se comprometeram em fomentar um transporte urbano livre das emissões poluentes em 20 megacidades, já a partir do ano que vem.

Com o programa Livre da Fuligem (Soot Free), a iniciativa é liderada pelo C40, Coalizão do Clima e Ar Limpo (CCAC), Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) e o Centro Mario Molina, Chile. A meta é estabelecer condições propícias para que as frotas de ônibus urbanos equipados com trações alternativas ou mesmo com motores a diesel, atendendo a norma Euro VI, estejam presentes em larga escala pelos principais sistemas de transporte coletivo do mundo. Hoje, menos de 20% dos ônibus vendidos são equipados com algum tipo de recurso que diminua a emissão de fuligem.

Uma das maiores fabricantes mundiais de ônibus, a Scania, informou que está comprometida em disponibilizar sua tecnologia limpa para as cidades envolvidas nesse projeto. “Para vencer os desafios de se instituir uma melhor qualidade do ar e reduzir os efeitos negativos das mudanças climáticas, estamos orgulhosos em oferecer soluções limpas para ônibus, com custos operacionais menores que o atual modelo a diesel”, disse Karin Rådström, responsável por vendas de ônibus da montadora.

Ainda, de acordo com a montadora sueca, é preciso mais do que o compromisso em oferecer veículos com tecnologia embarcada e a transição para novas matrizes energéticas requer o empenho dos diversos protagonistas da parceria global. Os governos locais necessitam estabelecer políticas públicas para que essa modalidade de ônibus tenha maior presença nas frotas. Outrossim, a qualidade e a oferta de combustíveis limpos (diesel com menos de 100 PPM de enxofre, biodiesel, gás natural/biogás e etanol) devem ser garantidas para o sucesso do projeto.

São Paulo está na rota dessa iniciativa, restando saber que caminho irá tomar. Questionada sobre sua participação no projeto Livre da Fuligem, a Scania do Brasil comentou que, para atender aos requisitos da mobilidade urbana limpa, irá promover suas tecnologias já conhecidas por nós, que são a propulsão a gás natural/biogás/biometano, etanol e biodiesel, sempre procurando atender as políticas locais em oferecer alternativas viáveis, econômicas e ambientais. Silvio Munhoz, diretor de vendas de ônibus urbanos da Scania Brasil, informou que a tecnologia do gás, por meio de um motor que utiliza também o biometano como combustível e que atende com folga a norma Euro VI, é a que terá maior atenção quando a iniciativa do ônibus limpo chegar por aqui. “A solução técnica e com viabilidade econômica já temos. Resta a definição da disponibilidade do combustível, que é primordial. Há vários acordos sendo tratados para a sua produção, seja por transformação da vinhaça ou vindo de estações de tratamento de esgoto, lodo sanitário”, completou o executivo.

A capital chilena Santiago, onde os danos causados pela poluição atmosférica vinda dos ônibus urbanos é um problema de muitos anos, anunciou que é a primeira cidade a fazer parte dessa iniciativa, buscando colaborar e investir na operação de novos ônibus com tecnologias limpas de tração para que os veículos poluidores saiam o mais rapidamente de suas ruas.

A proposta mundial para os ônibus com tração limpa é muito bem-vinda. Entretanto, não resolverá sozinha os problemas da mobilidade urbana e das consequências negativas causadas por um trânsito insano. Será preciso bem mais que isso para alcançarmos cidades mais humanas. Incentivar o transporte público de qualidade, integrar os modais, priorizar o modal ônibus no fluxo viário, proporcionar condições adequadas de deslocamentos para os meios não motorizados e a redução das longas jornadas das pessoas para trabalhar, estudar ou mesmo se divertir, é uma saída para os habitantes das grandes áreas urbanas.

Os governantes brasileiros parecem não se importar com a situação de caos que remete o amanhã das cidades. Precisamos de verdadeiros gestores com ideias e ações diferenciadas, comprometidos com o desenvolvimento urbano sustentável e com o bem-estar dos cidadãos.

Imagem – Arquivo Scania